Um cenário de embate entre as considerações feitas pelo pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Amazônia e o posicionamento oficial da instituição sobre uma possível segunda onda de Covid-19 no Amazonas e a a defesa de um lockdown ganharam uma conotação política forte nos últimos dias.
O tema chamou atenção em nível nacional depois que o pesquisador Jesem Orellana afirmou que a instituição estava se apropriando do discurso do governo federal de Jair Bolsonaro, ao se posicionar falando sobre controle da pandemia para defender uma visão de que não é motivo para medidas extremas no Estado e que o Amazonas está passando por uma segunda onde de Covid-19.
Em nota técnica divulgada no dia 20, a Fiocruz incentivou que medidas de proteção individual e coletiva são necessárias no momento e que essas devem ser ainda mais seguidas à risca, junto com um plano ativo de planejamento e monitoramento do vírus por parte dos governantes. O órgão também pontuou um crescimento ainda lento de casos, porém persistente e que testes feitos apontaram para baixa transmissão comunitária da doença.
Divergência entre os poderes
A discussão sobre Manaus ganhou ainda maior força local após a entrevista concedida pelo atual prefeito, Arthur Virgílio Neto (PSDB) à CNN, com duras críticas ao governo estadual e declaração de que a capital deveria passar por duas semanas de lockdown, influenciado pela conclusão do pesquisador Jessem Orellana.
A medida sugerida pelo prefeito foi logo abolida em vídeo oficial do governador Wilson Lima (PSC), que afirmou ter visto os últimos números fornecidos pela Fundação de Vigilância de Saúde (FVS) e que comparado ao que o Estado viveu entre os meses de março e junho, a situação agora é “não é cabível de uma atitude como tal”.
Questionado sobre a posição do tucano, Jair Bolsonaro classificou como absurda a proposta do prefeito de Manaus e afirmou que é contra isso desde o começo da pandemia. “Essa época já passou”, disse o presidente.
Pauta na CMM
Na Câmara Municipal de Manaus (CMM), o assunto ganhou repercussão. O líder do PMN, Cláudio Proença, falou sobre a suavização nas medidas adotadas tanto pelo governo quando pela prefeitura. Na mesma linha, o vereador Bessa (Cidadania) também defende maior fiscalização enfatizando que deve-se tentar não prejudicar os estabelecimentos que estão se esforçando para cumprir as medidas necessárias.
Já Isaac Tayah (DC) levantou o fato de que com a volta às aulas na rede estadual de ensino, o aumento no número de casos era inevitável e Diego Afonso (PSL) apontou que o debate deve ser voltado para o pós-pandemia.
Corrida Eleitoral
Em recentes entrevistas, alguns dos candidatos à Prefeitura de Manaus também já deram suas opiniões sobre a proposta de lockdown na capital.
Enquanto Coronel Menezes (Patriota) criticou a possível medida, Ricardo Nicolau (PSD) defende que as unidades de saúde sejam preparadas para cuidar da população. “Até hoje não estão fazendo diagnóstico precoce e nem tratamento precoce”, dissse.
Outro prefeiturável a comentar o tema foi David Almeida (Avante), que declarou ser contra o lockdown na capital.
De acordo com uma análise feita pelo Grupo Folha, em seus planos de governo submetidos para a campanha, cinco candidatos à Prefeitura de Manaus não fazem citação às palavras pandemia ou Covid-19 nos planos de governo apresentados. São eles: Alfredo Nascimento (PL), Amazonino Mendes (Podemos), José Ricardo (PT), Marcelo Amil (PCdoB) e Romero Reis (Novo).
Números
De acordo com dados da Secretaria Municipal de Saúde (Semsa), entre 24 e 28 de setembro, foram registrados 1.627 casos na capital. O que significaria um aumento de 30% se comparado aos 1.255 diagnósticos positivos da Covid-19 no mesmo período do mês passado.
Sharon Marques para O PODER
Foto: Montagem