Em abril, quando o sistema de saúde no Amazonas entrou em colapso pela primeira vez, faltaram leitos nos hospitais, vagas nas UTIs e covas nos cemitérios. Mas os melhores hospitais do país seguiam apenas um táxi aéreo de distância. Até essa semana.
A reportagem disse que na quinta, entrou em contato com cinco empresas do Amazonas que transportam pacientes para outros estados e nenhuma tinha aeronaves disponíveis. “Está muito complicado”, me disse um funcionário de uma das empresas de táxi aéreo com quem falei. “Não vou conseguir atender. Amanhã estoura a jornada de trabalho dos pilotos e estou sem outra tripulação para substituir”, me disse outro. Uma das empresas informou só ter vagas para terça-feira. O preço do transporte de Manaus para São Paulo, principal destinos dos doentes, varia de R$ 105 mil a R$ 162 mil. Mas não há voos nem se você pagar mais. A fila do SUS da elite manauara é a fila do jatinho.
Situação bem diferente da vivida pouco tempo atrás, quando o ex-senador e ex-prefeito de Manaus, Arthur Virgílio embarcou em um voo privado para São Paulo assim que viu a covid-19 agravar. O tucano se internou por 31 dias no Sírio Libanês, um dos hospitais mais caros do país. Agora, enquanto pacientes morrem asfixiados na capital do Amazonas por falta de oxigênio, nem a riqueza poderia salvá-lo – faltam vagas até nas UTIs aéreas.
No fim da tarde de quinta, enquanto eu fazia ligações, as pessoas começaram a compartilhar um vídeo do ministro da Saúde Eduardo Pazuello. Era parte do seu discurso em um evento na cidade, no dia 11. Apesar de ter nascido no Rio, Pazuello viveu a infância na capital nortista e ainda tem filha, irmã e sobrinhos morando lá. “Quando cheguei na minha casa ontem, estava a minha cunhada. O irmão [dela] não tinha oxigênio nem para passar o dia. [Eu disse] Ah, acho que chega amanhã. [Ela perguntou] O que você vai fazer? [Eu disse] Nada. Você e todo mundo vai esperar”.
A família do ministro é rica. Tem postos de combustível e também é dona de uma das mais antigas empresas de navegação do estado, fundada em 1948 pelo patriarca, Nissim Pazuello. Se está difícil até para os ricos e parentes do ministro da Saúde, imagine para os pobres.
A empresa White Martins, principal fornecedora de oxigênio para os hospitais do Amazonas, informou que a demanda está muito acima da sua capacidade. Até então, o máximo que ela havia produzido localmente era 30 mil metros cúbicos por dia. Agora, a empresa tem que produzir 70 mil metros cúbicos por dia para salvar os doentes na cidade. Para piorar, a BandNews FM descobriu que dias antes do colapso do oxigênio nos hospitais, o governo federal havia aumentado o imposto de importação sobre os cilindros usados no armazenamento de gases medicinais.
A situação em Manaus era previsível. Pesquisadores do Amazonas alertavam desde agosto para tudo que está acontecendo agora e recomendavam que o governo decretasse lockdown o quanto antes. Como mostrei no começo de outubro, parte dos dados que endossaram a ideia de que a cidade tinha chegado à propalada “imunidade de rebanho” estavam errados. Mas os especialistas não foram ouvidos.
O último alerta epidemiológico divulgado pelo cientista Jesem Orellana, da Fiocruz Amazônia, mostra que o número de leitos ocupados com pacientes confirmados ou suspeitos de covid-19 aumentou 636% desde setembro. Somente nos primeiros 12 dias de janeiro, morreram 446 pessoas. Esse número é maior do que a soma de todos os óbitos registrados em julho, agosto e setembro do ano passado– 399. Uma quinzena mortal.
Em um vídeo publicado no Instagram, o médico intensivista Anfremon D’Amazonas contou o que presenciou em uma manhã no Hospital Universitário Getúlio Vargas. A equipe, diz, teve que fazer o racionamento do pouco oxigênio disponível “de acordo com a gravidade do paciente”. Das 27 pessoas internadas, três morreram. “Os pacientes morriam e não tinha o que fazer. Você sabe que eles precisam de oxigênio naquele momento e você não tem para ofertar. A deterioração de uma pessoa sem nível adequado de oxigênio é muito rápida. A pressão começa a cair e o doente morre. Foi assustador”.
No final de dezembro, quando admitiu tardiamente que a situação estava se agravando no estado, o governador Wilson Lima, do PSC, tentou decretar o fechamento do comércio, mas recuou após um dia de protestos pela flexibilização das atividades não essenciais. Deputados bolsonaristas como Eduardo Bolsonaro, Bia Kicis, Carla Zambelli, e o ex-ministro Osmar Terra, consideraram que o recuo do governador foi uma vitória do povo e comemoraram no Twitter.
A despeito dos deputados, duas semanas depois, dezenas de amazonenses estão chorando pelos parentes que morreram dentro dos hospitais. Eram pacientes que tinham leitos mas não tinham oxigênio. Morreram sufocados.
Conteúdo e foto do Intercept Brasil