O ex-diretor-presidente da Americanas, Miguel Gutierrez, disse à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e à Polícia Federal que nenhuma decisão estratégica na empresa era tomada sem o conhecimento de Carlos Alberto Sicupira. A informação é do portal UOL.
O portal teve acesso ao depoimento de três horas que Gutierrez deu à autarquia de mercados. Segundo o ex-executivo, a Americanas tinha uma linha de comando na qual o acionista de referência e sócio da 3G Capital dava aval a todas as decisões.
Gutierrez negou à CVM ter conhecimento das manobras para maquiar o balanço da Americanas e esconder ao menos R$ 20 bilhões de dívidas e alegou não ter envolvimento direto com as áreas financeira e contábil.
Fonte ligada a Sicupira e aos outros dois acionistas de referência da Americanas, Jorge Paulo Lemann e Marcel Telles, disseram ao portal que o depoimento de Gutierrez é uma tentativa de “abraço de afogado” para tentar dividir a culpa pelo escândalo.
Provas das Americanas
A Americanas apresentou nesta segunda-feira possíveis novas evidências que apontam a responsabilidade direta de Miguel Gutierrez, ex-diretor-presidente da companhia, no esquema que gerou o escândalo contábil revelado em janeiro.
A empresa diz ter encontrado documento digitalizado, com anotações de próprio punho feitas por Gutierrez, guardadas em computador da empresa, em materiais que apontam a existência de duas versões dos demonstrativos da Americanas.
Uma das versões desse balanço seria de uso interno da antiga diretoria, apontada como a principal responsável pela implementação do esquema, e outra destinada ao conselho de administração.
A companhia diz ter e-mail enviado por Gutierrez aos ex-diretores, com orientações para que não fossem levadas respostas a dúvidas sensíveis sobre o quarto trimestre e endividamento da Americanas ao então novo diretor-presidente, Sergio Rial.
Por fim, a Americanas afirma ter outro e-mail, também destinado aos ex-diretores envolvidos no escândalo, com reclamações de Gutierrez sobre os questionamentos do comitê de auditoria da empresa sobre as práticas de governança.
A Americanas também afirma que Gutierrez entrou em contradição nas manifestações apresentadas à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre o escândalo contábil e no processo movido pelo Bradesco sobre patrimônio de acionistas.
A empresa afirma que Gutierrez e a ex-diretoria apresentaram ao conselho de administração, de forma inequívoca, que a Americanas geraria R$ 500 milhões de caixa no quarto trimestre de 2022, mantendo endividamento saudável.
Isso iria contra as declarações do ex-diretor-presidente que a Americanas passava por situação financeira difícil no segundo semestre, que precisaria de aporte de capital e que todos os órgãos da administração tinham ciência desse fato.
Outra argumentação sem fundamento, segundo a Americanas, é que órgãos sociais da empresa deliberavam sobre questões estratégicas da Americanas sem conhecimento e participação de Gutierrez.
A Americanas afirma que isso é provado falso após mensagem sobre ações do comitê financeiro, assim como de agendas de reuniões do conselho, mostrando que Gutierrez era ativo na gestão da companhia, como é de se esperar para o cargo.
A empresa diz que tanto as respostas às afirmações de Gutierrez quanto as evidências que as certificam constam da petição protocolada em resposta ao agravo no processo movido pelo Bradesco.
A Americanas também “lamenta a posição da instituição financeira, não compartilhada pelos demais bancos credores da companhia, que seguem empenhados num consenso ao plano de recuperação judicial”.
“A companhia confia na competência de todas as autoridades envolvidas nas apurações e investigações, à frente das conduções de delações homologadas já em segredo de justiça, que devem trazer ainda mais robustez às já contundentes provas apresentadas”, afirma a Americanas.
Outro lado
A defesa do ex-diretor-presidente da Americanas, Miguel Gutierrez, afirma que a empresa novamente pegou documentos fora de contexto na tentativa de corroborar uma narrativa falsa e incomprovada de participação do executivo no escândalo contábil.
“As novas alegações da companhia serão rebatidas nos foros próprios do processo, mas chama a atenção que nenhum daqueles documentos sequer se relaciona com VPC ou ‘risco-sacado’, temas que a companhia disse, no fato relevante de 13 de junho, corresponderem à fraude”, diz a defesa de Gutierrez, em nota enviada ao Valor.
Os representantes do ex-diretor-presidente da Americanas pontuam ser incompreensível a insistência em se precipitar à conclusão das autoridades para proteger seus acionistas controladores e membros do conselho de administração, com responsabilidade nas áreas financeira e contábil.
“A companhia tropeça, assim, na tentativa de proteger pessoas que teriam muito mais condições de ressarci-la pelos danos que diz ter sofrido”, completa a defesa de Miguel Gutierrez.
Da Redação
Ilustração: Neto Ribeiro/Portal O Poder