Em artigo para o Reset, da UOL, o diretor-presidente da Bemol e cofundador da Fundação Amazonas Sustentável, do Museu da Amazônia e da plataforma Parceiros Pela Amazônia, Denis Minev, elenca motivos para pavimentar a BR-319.
O primeiro motivo seria que a rodovia já funciona apesar de ter um trecho de barro. Carretas e ônibus conectam cidades como Humaitá, Manicoré, Careiro, Manaquiri e até Porto Velho (RO). A BR-319 tem 885 quilômetros e quanto mais demora a licença maiores são os danos ambientais. “Estamos falando de mais de 200 mil pessoas vivendo ao longo da BR hoje. A rodovia fica intransitável apenas um ou dois meses por ano, no período das chuvas”, observa Denis.
De acordo com Minev, em relação ao desmatamento, a trafegabilidade da rodovia atualmente já atrai ocupantes e o maior problema é a ausência do poder público na região. “Sim, o trajeto hoje é terra sem lei, sem instituições, de acesso limitado apenas ao poder público”, critica.
O segundo motivo trabalhado por Minev é que dá para aliar estradas e conservação, como a exemplo da BR-174 e da AM-070, que não causam desmatamento, pois o objetivo é conectar cidades e não popular o território, como é o caso da BR-364 (Transamazônica) e a BR-163.
“O Brasil é capaz de criar uma rodovia de 885 km com proteção. Dois a três postos policiais apoiados por inteligência e satélites seriam suficientes. Já existem planos para áreas protegidas ao longo da BR desde 2008”, informa.
Ele ainda ressalta que é possível consultar comunidades e populações indígenas para atender suas vontades, inibir a criação de ramais ao longo da BR-319 para evitar desmatamento e criar barreiras de proteção.
O terceiro motivo é que o transporte fluvial não basta para o transporte de cargas. Por exemplo, serve bem para produtos como soja e minério, por causa do pedo e volume. Porém tem funcionalidade só por uma boa parte do ano, e uma sociedade e economia próspera não se constrói durante alguns meses do ano.
Por exemplo, a hidrovia do Madeira, por exemplo, é difícil de navegar por causa dos diversos detritos, da profundidade limitada em alguns trechos e pedrais que causam gargalos. Além disso, na seca, fica quase intransitável, alongando viagens de cinco para nove dias.
A seca é outro ponto abordado. Para Minev, a estiagem de 2023 deixou claro que as conexões fluviais do Amazonas são frágeis. “Qualquer empresa que navega na Amazônia já teve casos de encalhe em bancos de areia móveis”, relata.
O quarto motivo apresentado por Minev é que o Amazonas precisa de integração. “Amazonas e Roraima, com alto custo de vida e indicadores sociais e econômicos lamentáveis, aguardam conexão. Transportar um contêiner entre Manaus e São Paulo custa quase o mesmo que a rota Xangai – São Paulo”, exemplifica.
O quinto e último motivo seria o envolvimento político do Amazonas, Roraima e Rondônia. Para Denis, os três são cruciais para qualquer política ambiental nacional bem-sucedida.
“Hoje, apoiar com qualquer intensidade o Ministério do Meio Ambiente é politicamente inviável para governadores e prefeitos na região. Isso também gera atrito permanente com 9 senadores e 24 deputados federais”, conta.
Minev diz que persistir no impasse da BR-319 por mais de uma geração é insensato para a Amazônia e para o Brasil. “Pelos argumentos acima, creio que teremos inclusive mais desmatamento com a estrada de terra no estado de desordem atual do que teríamos com uma planejada e asfaltada. Hoje, o cenário é o pior possível”, ressalta.
Alternativa Ousada
Para Denis Minev, a Amazônia seria compensada com R$ 10 bilhões por ano enquanto não houver a BR-319. “Metade desse total seria usado para formar gente em ciência e tecnologia, com foco especial em biologia e tecnologia da informação. Ao cabo de 10 anos, 25% da população de Amazonas e Roraima poderiam estar prestando serviços de tecnologia para clientes em qualquer lugar do mundo, gerando renda familiar de algo como R$ 100 bilhões por ano, muito mais do que a Zona Franca de Manaus, Belo Monte e Carajás juntas. E, se alguém acreditar nas contas dos detratores da Zona Franca, de forma muito mais barata”, explica.
Conforme o articulista, os outros R$ 5 bilhões iriam para investimentos via CNPq/Capes/Finep no Amazonas e em Roraima, com foco em biologia e TI. Em dez anos, os estados seriam grandes centros de inovação global e descobririam soluções para os mais diversos problemas da humanidade.O valor seria financiado por créditos de carbono.
“Detratores acreditam que a BR-319 geraria uma imensidão de desmatamento. Suponhamos algo como 5% da área do Amazonas. Com 600 toneladas de CO2 equivalente por hectare e um valor hipotético de US$ 100 por tonelada de carbono, seriam mais de US$ 400 bilhões acumulados de valor, se algum europeu acreditasse nessa conta”, diz o articulista.
Segundo Minev, a impressão é de que o mundo parece pedir que o Amazonas e Roraima sejam os primeiros lugares no planeta a deixar de lado o desenvolvimento através de estradas, mas não parece haver ninguém disposto a ajudar.
“Sudeste brasileiro, Europa, mundo: estamos em 2023. É hora de casar suas ações com seu discurso. Nós amazônidas preservamos mais de 80% da nossa floresta, vocês, não”, critica.
Para ele, somente com diálogo pode-se deixar um Brasil mais próspero e conservado à próxima geração. Mas não é de boa-fé deixar que o Amazonas e Roraima façam algo que ninguém no mundo tentou, comprometendo presente e futuro sem a devida compensação ou apoio.
“Como dizia o grande amazonólogo Samuel Benchimol, o futuro não acontece por acaso; construamos já as bases do nosso futuro justo e próspero”, finaliza.
Da Redação com informações do site Reset
Foto: Divulgação