Uma crise interna ganhou repercussão nacional nesta semana após o pastor Samuel Câmara, presidente da Convenção das Assembleias de Deus no Brasil (CADB), afastar outro pastor Marcelo Campelo da liderança da Assembleia de Deus – Doca, uma das congregações mais tradicionais em Belém (PA). A decisão provocou protestos públicos de fiéis durante o culto de transição pastoral realizado no último domingo, 4.
Samuel Câmara esteve pessoalmente na AD Doca para empossar o novo dirigente da igreja. Ao perceberem que a mudança na liderança seria imposta, membros da congregação reagiram de forma imediata. A maioria dos fiéis presentes se levantou e deixou o templo em sinal de protesto, interrompendo o culto e evidenciando o racha entre a base e a liderança nacional da denominação.
Do lado de fora da igreja, centenas de fiéis se reuniram em apoio a Marcelo Campelo. O grupo realizou orações, entoou louvores e fez apelos por justiça e transparência na administração da igreja. As cenas de comoção e tensão foram registradas em vídeos que circularam amplamente nas redes sociais.
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Denúncia pública teria motivado afastamento
Segundo relatos de membros da igreja, o estopim para a destituição de Marcelo Campelo teria sido uma denúncia feita pelo próprio pastor em suas redes sociais. Ele questionou publicamente a suposta locação do Centro de Convenções Centenário da Assembleia de Deus, espaço histórico da denominação em Belém, pelo valor de R$ 2 milhões para eventos culturais durante a COP 30, realizada na capital paraense.
A postura crítica em relação à gestão financeira da convenção teria desagradado a liderança nacional e motivado a remoção repentina do pastor, sem aviso prévio à congregação local.
Versão da liderança
Em declaração durante o culto, Samuel Câmara afirmou que a transição segue o histórico administrativo da igreja e negou que tenha havido afastamento forçado. Segundo ele, a decisão teria partido do próprio Marcelo Campelo, que, de acordo com a liderança, afirmou que seu tempo à frente da congregação havia se encerrado.
Samuel também declarou que o pastor deixa a AD Doca com sua “bênção” e liberdade para seguir novos caminhos ministeriais.
Afastamento foi imposto sem aviso
Em suas redes sociais, o pastor Marcelo Campelo contestou publicamente a versão apresentada por Samuel Câmara e afirmou que foi surpreendido pela decisão. Segundo ele, estava de férias com a família quando foi convocado pelo presidente da convenção para comparecer à igreja no domingo pela manhã, ocasião em que foi informado de sua saída imediata da liderança da Assembleia de Deus – Doca.
De acordo com Campelo, a comunicação foi direta e sem possibilidade de diálogo. “A primeira coisa que ele falou foi: ‘Marcelo, estou te tirando da Doca hoje e vou apresentar o novo pastor’. Eu sabia a motivação pela qual ele estava fazendo isso. A única coisa que eu pedi foi: ‘Pastor, faça isso no próximo domingo. O povo não está esperando, minha família não está em Belém, estou sendo pego de surpresa’. Mas ele estava muito apressado e disse que era uma urgência”, relatou.
Ao lado da esposa, Campelo reforçou que não pediu para deixar o cargo e que sua saída não foi voluntária. Segundo ele, como a decisão já estava tomada, solicitou apenas uma despedida organizada, com a presença da família, nos mesmos moldes de quando assumiu a liderança da congregação, há cinco anos. O pedido, no entanto, também teria sido negado.
Em tom emocionado, o pastor afirmou que sua destituição está ligada ao posicionamento público que adotou. “Eu me posicionei como pastor defendendo a minha igreja. Não estou sendo tirado porque adulterei ou roubei. Estou sendo tirado porque me posicionei. Isso é uma ditadura. Quem regou aquele terreno fomos nós, quem conquistou aquele povo fomos nós. A unção que está ali é nossa, não de Samuel Câmara”, declarou.
Campelo também afirmou ter uma longa trajetória na denominação. “Eu sirvo à Assembleia de Deus há 22 anos e nunca envergonhei a igreja. Quantos pastores vocês conhecem que adulteram ou roubam? O que acontece com eles? Continuam lá. Mas quando você não come do sistema e resolve se posicionar, acontece isso: você é expulso”, disse.
Segundo ele, o episódio não teria sido isolado. “Isso foi orquestrado. Vários pastores foram expulsos no mesmo dia e no mesmo horário, porque também se posicionaram. Isso é uma ditadura?”, questionou.
Ao final, Marcelo Campelo direcionou críticas diretas à liderança nacional. “Eu fui um obreiro fiel e hoje vejo que, quando não servi mais ao sistema, o sistema me descartou. Vocês acham que são donos da igreja. No gabinete, ele disse: ‘Eu não me abalo com nada, eu sou inatingível’. Todo mundo entendeu o recado: ele manda, ele é o poderoso. O recado é claro: não mexam com a minha família, não mexam com a minha igreja, porque se mexer, eu corto”, concluiu.
Repercussão
O episódio teve ampla repercussão nas redes sociais e dividiu opiniões entre fiéis, lideranças evangélicas e internautas. Enquanto parte do público defende a autoridade da convenção nacional, outros apontam falta de transparência e criticam a condução do processo, especialmente diante da reação expressiva da congregação local.
Thaise Rocha, para o Portal O Poder
Foto: Reprodução

