janeiro 29, 2026 12:04

Banco Central abre investigação interna sobre caso Master

O Banco Central abriu uma investigação interna para entender o que aconteceu no escândalo do Banco Master. O objetivo é apurar eventuais falhas ocorridas no processo de fiscalização e liquidação da instituição financeira controlada por Daniel Vorcaro. A sindicância está sendo conduzida sob sigilo pela corregedoria e foi iniciada a partir de uma decisão do presidente da autoridade monetária, Gabriel Galípolo, tomada no fim do ano passado.

Em meio ao avanço dessa investigação, Belline Santana e Paulo Sérgio Neves de Souza, que comandavam o Departamento de Supervisão Bancária (Desup), entregaram seus cargos. Não há, até o momento, acusações formais contra eles. Procurado, o BC afirma que “a alternância de nomes em cargos comissionados é uma prática normal no âmbito da administração pública”.

O primeiro a deixar o cargo foi Souza, ex-diretor de fiscalização do BC. Servidor de carreira, ele foi o responsável por autorizar a compra por Daniel Vorcaro do Banco Máxima, que passou a se chamar Master. Mais recentemente, atuava como chefe-adjunto do Desup e era responsável por acompanhar a solidez e a estabilidade do mercado financeiro.

O segundo foi Belline, chefe do Departamento de Supervisão Bancária do BC. Ele chegou a ser cotado para substituir Neves na diretoria de Fiscalização, que hoje é ocupada por Aílton de Aquino Santos. Belline assinou diversos ofícios e despachos do Banco Central enviados ao Ministério Público Federal relativos ao Master.
Um desses documentos foi citado pela defesa de Vorcaro na argumentação do banqueiro perante a Justiça. Em um ofício enviado ao Ministério Público Federal, Belline relata que uma operação de compra suspeita de carteiras fictícias de crédito pelo Master no fim de 2024 acabou sendo desfeita no início de 2025. Em outro trecho, diz que o BC não identificou indícios de irregularidades em transações de crédito consignado originadas pelo próprio Master.
Queda de avião”

A ideia da investigação interna, segundo integrantes do BC, não é fazer uma caça às bruxas, mas sim obter uma radiografia mais profunda do escândalo do Banco Master — e, com isso, aprimorar regras e controles para o futuro. A lógica, segundo servidores da autoridade monetária, é semelhante à apuração de uma queda de avião em que precisa entender as causas que provocaram a tragédia.

O banco de Daniel Vorcaro teve um crescimento exponencial no mercado captando recursos via CDBs com taxas acima das praticadas pelos concorrentes. Em geral, os bancos emitem papéis com rendimento de até 98% do CDI, índice que acompanha de perto a taxa Selic. O Master, porém, fugia ao padrão ao oferecer retornos de até 140% do CDI.
Com o esgotamento desse modelo de negócios e a dificuldade para honrar os compromissos, o banco enfrentou problemas para se manter saudável no mercado e passou a ser monitorado mais de perto pelo Banco Central a partir de 2024. Enquanto a crise se agravava, Vorcaro negociou a venda da instituição para o BRB, que vinha socorrendo o banco ao longo do período por meio de compra de carteiras de crédito.

O escândalo do Master veio à tona em 18 de novembro de 2025, quando o Banco Central decidir liquidar a instituição financeira, encerrando as suas atividades, afastando seus administradores e bloqueando o patrimônio para pagar credores. No mesmo dia, a Polícia Federal deflagrou uma operação para apurar suspeitas de fraudes em uma operação de venda de carteiras de crédito com indícios de irregularidade no valor de R$ 12,2 bilhões envolvendo o BRB, controlado pelo governo do Distrito Federal.
Tanto o Master quanto o BRB negam qualquer irregularidade e dizem que as carteiras de crédito suspeitas foram substituídas.

Outra investigação da PF em parceria com o BC apontou indícios de irregularidades na relação do Master com a gestora de recursos Reag DTVM, que foi liquidada em 15 de janeiro deste ano. Segundo as apurações, a instituição financeira de Daniel Vorcaro fazia empréstimos para empresas que repassavam os recursos para inflar o resultado de fundos da Reag. O dinheiro, após uma série de transações relâmpagos, voltava para o próprio Master em aplicações de CDBs (Certificado de Depósito Bancário), título de renda fixa emitido por instituições financeiras.

O caso mais ilustrativo é o empréstimo de R$ 459 milhões concedido pela instituição financeira de Daniel Vorcaro para a Brain Realty Consultoria e Participações Imobiliárias, dirigida por uma ex-funcionária da Reag. Conforme revelou O GLOBO, tão logo esses recursos foram recebidos pela empresa, o dinheiro foi repassado para o Fundo Brain Cash, criado pela Reag 20 dias antes, com um patrimônio de R$ 15 mil.

A aplicação de R$ 450 milhões no fundo Brain Cash foi relâmpago. Uma hora e meia depois de receber esses recursos, o dinheiro foi repassado para o Fundo D Mais, também ligado à Reag e que tinha em sua carteira de investimentos papéis do Besc. Três minutos depois, o Fundo D Mais transferiu R$ 450 milhões ao FIDC High Tower para liquidar parte de uma aquisição de papéis do Besc.

Esse fundo, segundo a investigação, reavaliou esses ativos de baixa liquidez para R$ 10,8 bilhões, registrando uma rentabilidade de 10.502.205% em 2024. No mesmo ano, para efeito de comparação, a maior criptomoeda do mundo rendeu em torno de 120% de retorno em dólar, enquanto o ouro valorizou 61,6% em reais no mesmo período.

Procurados, Master e Reag negam qualquer irregularidade.

 

Da Redação com informações de O Globo

Foto: Divulgação

 

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