Durante entrevista no programa Manhã de Notícias, da Rede Tiradentes, o ex-governador José Melo (Pros), cassado em 2019 pelo Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas (TRE-AM) por compra de votos, afirmou que escreveu uma carta com mais de 100 páginas contando sobre todo o esquema de corrupção no Amazonas. O documento relatava o envolvimento de diversos políticos do Estado com corrupção.
“Escrevi 110 laudas até 5h da manhã, contando toda a história da minha vida e todos os políticos com quem eu convivi. Uma herança maldita para os meus filhos, uma herança maldita para mim e minha vida espiritual porque eu iria para o inferno, pois iria me matar, mas iria deixar um estrago muito grande”, disparou o ex-governador.
José Melo disse que o documento foi queimado. “Esse documento passou 30 dias na minha gaveta e esqueci que tinha escrito depois que uma criança, sobrinha da minha esposa, chegar à minha casa”, disse.
Prisão
Preso por suspeita de participar de uma esquema criminoso que desviou milhões da saúde do Amazonas, José Melo falou que um dos piores momentos foi quando enfrentou uma depressão. Nesse período, o ex-governador do Amazonas ficou exclusivamente na sua cela, sem participar até mesmo do banho de sol.
“Eu tinha sido cassado por compra de votos e a Nair Blair foi inocentada porque não comprou votos. Fui preso acusado de formar com Mohamed Moustafa uma quadrilha que, de acordo com os autos, foi formada na época em que José Melo era vice-governador, mas não consta que eu tenha participado. Três dias depois eu fui solto porque você, Ronaldo Tiradentes, contratou um advogado para me tirar. Desculpa, mas não posso deixar de dizer isso”, afirmou.
‘Homem de confiança’
Ao ser questionado pelo apresentador do programa se teria sido o “homem de confiança” do atual senador Eduardo Braga (MDB), o ex-governador disse que sua esposa, Edilene Oliveira, foi secretária do emedebista.
“Eu estava como deputado estadual na Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam) quando recebi um convite para almoçar com Eduardo Braga. O objetivo era que eu ficasse como uma espécie de primeiro ministro e fazer um trabalho administrativo em relação ao governo dele e um trabalho político para a sua reeleição. Eu fui e passei dois anos da minha vida dentro de uma lancha e de um avião, fiz o trabalho no interior e ele teve uma vergonhosa votação aqui na capital, mas ganhou no interior. Ele perguntou se eu o ajudaria e o que eu queria, ao que eu respondi: eu quero ser governador. Ele disse para eu ajudá-lo naquele momento que ele me ajudaria depois. Esse compromisso ficou firmado e nunca foi cumprido”, alfinetou.
Apoio
José Melo citou, ainda, que quando foi pedir apoio a Eduardo Braga para ser candidato ao governo, usou uma metáfora e disse que política era como o tempo, “que às vezes chovia e às vezes fazia sol”. Melo disse que, mesmo assim, saiu candidato ao governo do Amazonas contra Braga e o venceu no primeiro turno.
“Ele (Eduardo Braga) disse que seria candidato e eu respondi que iríamos bater chapa juntos pela primeira vez. Ele deu um sorriso maroto e disse: ‘Tu achas que eu vou perder a eleição para um professorzinho do interior?’. Eu respondi que enquanto ele dormia até 11h, eu às 5h já estava rezando e às 6h já estava trabalhando, e na eleição ganhamos com 173 mil votos de diferença”, ressaltou.
Compra de votos
O ex-governador afirmou, ainda, que durante a campanha houve uma reunião com vários pastores evangélicos do Amazonas. Apesar de não ter participado da reunião, Melo cita que está nos autos que, durante o evento na igreja, dois policiais da Polícia Federal prenderam Nair Blair, sob acusação de compra de votos.
“Ao termino do culto, o pastor pediu que os irmãos permanecessem e perguntou pela senhora Nair Blair. Quando ela se levanta, é presa sem dar uma palavra e levada para a Polícia Federal e o delegado perguntou do que se tratava. Foi um flagrante de compra de votos”, explicou.
José Melo afirmou que os dois polícias que prenderam Nair Blair disseram que nunca viram compra de votos e justificaram dizendo que era uma reunião “estranha”. “Eu fui cassado por causa de uma reunião estranha. No nosso caso, aqui a Nair Blair comprovou a origem do dinheiro que lhe foi devolvido”, disse.
Vitima de Eduardo Braga
Ao ser questionado pelo apresentador se era uma vitima do senador Eduardo Braga, José Melo foi irônico. “Em primeiro lugar, se o Eduardo Braga fosse um vírus, ele seria a Covid-19. Porque ficava insistindo em todos os ministérios. Eu não consegui governar porque ele não deixava o governo da república ajudar o povo do Amazonas”, alfinetou.
Retomada a vida pública
José Melo afirmou que pretende retomar a sua vida política e que não guarda rancor de ninguém que lhe prejudicou. “Quando eu era governador, eu tinha o sonho de dar ao povo do Amazonas uma segunda matriz econômica que não fosse a Zona Franca de Manaus. A matriz ambiental é a riqueza do nosso Estado de forma sustentável para dar um equilíbrio que o Amazonas precisa”, justificou.
Augusto Costa, para O Poder
Foto: Divulgação
Edição e Revisão: Alyne Araújo e Henderson Martins