Enquanto autoridades municipais comemoram reajustes que chegam a até 100% nos próprios salários, moradores de Humaitá seguem convivendo com problemas antigos, como ruas esburacadas e a falta de insumos e medicamentos. Esse contraste de realidades passou a ser alvo de apuração do Ministério Público do Amazonas (MPAM).
A medida, aprovada pela Câmara Municipal, elevou o subsídio do prefeito de R$ 18 mil para R$ 30 mil, do vice-prefeito de R$ 15 mil para R$ 25 mil e dos secretários municipais de R$ 5 mil para R$ 10 mil. A justificativa apresentada foi a recomposição inflacionária acumulada desde 2012, com base no IPCA.
A investigação teve início após um vereador levar o caso ao MPAM, cumprindo sua função constitucional de fiscalizar os atos do Executivo. Em meio à aprovação pela maioria dos parlamentares, a iniciativa chama atenção por representar uma posição divergente dentro do próprio Legislativo.
Diante do cenário local, o Ministério Público apontou a necessidade de aprofundar a análise. Humaitá possui cerca de 60 mil habitantes e média salarial formal em torno de R$ 2,3 mil, além de enfrentar dificuldades em áreas essenciais, como saúde e infraestrutura urbana.
Também há registros de tentativas anteriores de reajuste, em 2020, que foram questionadas judicialmente e chegaram a ser suspensas. Agora, o órgão busca esclarecer se houve, de fato, ausência de aumentos no período ou eventual omissão de informações relevantes na justificativa da nova lei.
Outro ponto de atenção é o impacto financeiro. Apenas o reajuste dos secretários pode gerar custo adicional superior a R$ 800 mil em 2026, com previsão de ultrapassar R$ 1 milhão no ano seguinte. Para o MP, os valores indicam que a medida não possui efeito marginal nas contas públicas e exige análise criteriosa quanto à sua legalidade e adequação.
O episódio reacende um debate recorrente na administração pública: o equilíbrio entre decisões políticas e as reais necessidades da população. Em Humaitá, esse contraste não apenas chama atenção, ele se torna impossível de ignorar.
Da Redação


