Ancine diz à PF que Dark Horse ainda tem que cumprir etapas para ser lançado no Brasil

Em resposta encaminhada à Polícia Federal no último sábado, 29, a Agência Nacional do Cinema (Ancine) informou que “Dark Horse”, o polêmico longa-metragem sobre a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), ainda não concluiu todas as etapas burocráticas exigidas para ser lançado no Brasil. De acordo com a agência, o registro de obra estrangeira foi aceito, mas ainda faltam alguns outros passos até que ela possa ser exibida. A Ancine também esclareceu que o filme não recebeu recursos públicos federais geridos pela agência, o que o livra de prestar contas perante o órgão sobre despesas com a produção. 

A Ancine ainda comunicou aos investigadores que a Go Up Entertainment, responsável pela produção de “Dark Horse”, é alvo de um processo administrativo para apurar irregularidades na filmagem, que ocorreu no Brasil sem o conhecimento prévio da agência. Até o final deste mês de setembro a Ancine deve concluir a análise do caso e decidir o valor da multa a ser aplicada contra a Go Up, que pode chegar a R$ 100 mil.

A Ancine é responsável pela regulação e fiscalização do mercado audiovisual brasileiro e, por isso mesmo, desempenha um papel-chave ao analisar o registro da produção e dar aval para o lançamento comercial nos cinemas. A estreia de “Dark Horse” está prevista para depois das eleições, a partir de novembro, conforme antecipou o blog.

Na mira do Supremo Tribunal Federal (STF), “Dark Horse” abriu uma crise na campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República após virem à tona mensagens do senador cobrando dinheiro do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, supostamente para o financiamento da produção.

Após prometer entregar uma prestação de contas sobre os gastos do filme, Flávio tem afirmado que o assunto é “página virada” e tentado se desvencilhar do caso.

“Quem tem que prestar contas não sou eu, é o Lula que tem que prestar contas. Ele que tem que prestar contas porque está fazendo uma reunião escondidinha com Augusto Lima e Vorcaro, prometendo que ia facilitar a vida dele e do Banco Master”, desconversou o senador no último dia 24, ao participar de evento na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). 

Estranhamento

No ofício encaminhado à PF, a Ancine informa que aceitou o registro de obra estrangeira de “Dark Horse” no último dia 7. Este é o primeiro passo para o lançamento do filme, equivalente a uma espécie de cadastro no banco de dados da agência. Mas “Dark Horse” ainda precisa cumprir outras etapas para ser exibido nos cinemas, como obter aval da Ancine para exploração comercial e ainda ganhar uma classificação indicativa do Ministério da Justiça.

Segundo a Ancine, a distribuidora de “Dark Horse”, a Europa Filmes, ainda não foi atrás do Certificado de Registro de Título (CRT), documento emitido pela própria agência que dá aval à comercialização de uma obra audiovisual no Brasil. 

Nessa etapa, a distribuidora é obrigada a apresentar o contrato de distribuição, com o plano de lançamento e exploração da obra, além de informações sobre a divisão de receita e lucro do filme no território brasileiro – o que em tese poderia esclarecer se Vorcaro ficaria com alguma parte da renda do filme nas bilheterias nacionais.

A postura da Europa Filmes de não dar prosseguimento imediato à essa segunda etapa para viabilizar a estreia do filme tem provocado estranhamento no mercado.

“Não é normal pedir um registro e não solicitar imediatamente o CRT, porque a dinâmica é pedir junto para viabilizar logo a estreia do filme. Não teria por que separar uma coisa da outra”, afirmou uma fonte que acompanha de perto os desdobramentos do caso. “Isso passa a impressão de que eles querem dizer que a obra existe, mas postergar a entrega de documentos sobre o filme em plena campanha eleitoral.”

Representantes legais

Um dos pontos que a PF pretende elucidar é quais são as pessoas físicas e jurídicas vinculadas ao filme, além de produtores, coprodutores, distribuidoras, representantes legais e demais participantes do projeto. Segundo a Ancine, os representantes legais do filme no Brasil são a distribuidora Europa Filmes e a produtora Go Up Entertainment, presidida pela jornalista Karina Gama e por Michael Brian Davis.

A PF também pediu à Ancine esclarecimentos se o filme recebeu incentivos fiscais, recursos públicos federais ou “quaisquer benefícios vinculados às políticas públicas de financiamento do setor”. Na resposta, a Ancine informou que “Dark Horse” não recebeu recursos públicos federais nem incentivos fiscais geridos pela Ancine, como a Lei do Audiovisual (uma espécie de Lei Rouanet específica para o cinema).

Isso, na prática, livra “Dark Horse” de ter de prestar contas à Ancine, o que foi ressaltado pela agência aos investigadores.

Gastos estratosféricos em pré-produção

Uma das linhas de investigação da Polícia Federal é saber se os milhões de reais despejados por Vorcaro foram usados para bancar as despesas do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) durante o autoexílio nos Estados Unidos.

A perícia privada contratada pela produtora Go Up Entertainment, responsável por “Dark Horse”, revelou que 72% dos gastos com o filme ocorreram nos Estados Unidos. 

Conforme informou o blog, os gastos elevadíssimos com as etapas iniciais do projeto, bem acima do padrão em produções desse porte, chamaram a atenção de cinco produtores ouvidos pela equipe do blog que trabalham no mercado audiovisual brasileiro.

De acordo com a perícia encomendada pela Go Up, foram gastos na “soft produção” (uma fase embrionária de definição de questões conceituais do filme) US$ 2,68 milhões, ou 20% do orçamento total de US$ 13,39 milhões, o equivalente a R$ 75,18 milhões no cálculo da perícia encomendada pela Go Up.

Em média, um filme reserva entre 3% a 5% do seu orçamento para essa etapa. Além disso, as filmagens no Brasil custaram menos que o somatório da “soft” e da pré-produção (estágio anterior à gravação, com ensaios de elenco e viagens da equipe para as locações escolhidas).

Todos os cinco produtores ouvidos pela equipe da coluna foram taxativos ao apontar que os gastos com a chamada “soft produção” são estratosféricos para um projeto desse tamanho.

Na “soft pré”, como é chamada no mercado, são realizadas reuniões preparatórias apenas com o núcleo duro da produção, nas quais começam a ser definidas as principais diretrizes criativas e técnicas do filme, como a escolha de atores e locações, definição sobre fotografia (como os tipos de câmeras que vão ser usadas para as filmagens), além de conceitos de figurinos, por exemplo. 

Já a pré-produção de “Dark Horse” custou US$ 2,66 milhões, ligeiramente menos que a soft, de acordo com o documento elaborado pelo perito Castelo Branco. Isso também provocou estranhamento, já que essa segunda etapa envolve a mobilização das diversas equipes de cada área, com a elaboração de figurinos, viagens de preparação técnica para as filmagens e ensaios com o elenco escolhido.

Estreia

Conforme informou o blog, a Europa Filmes planeja um lançamento de grande porte para o filme sobre o atentado à faca contra Bolsonaro em 2018. A ideia é que “Dark Horse” seja exibido em pelo menos 650 salas – no patamar do fenômeno de bilheteria “Tropa de Elite 2” – e com cópias dubladas espalhadas por todo o país.

Em meio à polarização política que pode invadir os cinemas, o diretor-geral da Europa Filmes, Wilson Feitosa, trabalha com três cenários para a performance comercial de “Dark Horse”. Na pessimista, o filme sobre Bolsonaro repete o fraco desempenho de “Lula, o Filho do Brasil”, lançado em 2010, e atrai 800 mil espectadores. Na realista, faz entre 1,5 milhão e 2 milhões de espectadores.

Na otimista, supera os 2 milhões – um patamar alcançado por poucos filmes nacionais lançados no pós-pandemia, especialmente os voltados para o público adulto.

Para efeito de comparação, “O agente secreto” atraiu 2,4 milhões de espectadores ao longo de quatro meses em cartaz, turbinado pelo mar de premiações e as quatro indicações ao Oscar – algo que “Dark Horse” não deve ter a seu favor, como admite o próprio Feitosa.

 

Da Redação com informações de O Globo

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