Corrupção e desmatamento estão ‘lado a lado’, diz delegado da PF

Lotado na Delegacia de Volta Redonda, no Rio de Janeiro, o delegado federal Alexandre Saraiva não deixou de acompanhar o desmatamento na Amazônia. Para ele, a alta no índice de queimadas é atribuída, principalmente, à questão da madeira ilegal, já que atualmente, corrupção, madeira e desmatamento “caminham lado a lado”.

“O motor econômico que roda a máquina do desmatamento é a madeira ilegal, que incentiva e dá recursos. Além disso, há muitos órgãos ambientais que dão autorização para o desmatamento”, afirmou.

Ainda de acordo com Saraiva, o desmatamento poderia acontecer sem autorização, mas seria mais difícil. “A madeira só consegue ser negociada se tiver o Documento de Origem Florestal (DOF), que é autorizado pelo órgão estadual. Em outras palavras, controlando a corrupção também se controla o desmatamento”, explicou.

O documento, na avaliação do delegado, acaba sendo importante para acontecer o desmatamento. O DOF, instituído pela Portaria MMA n° 253, de 18 de agosto de 2006, constitui licença obrigatória para o transporte e armazenamento de produtos florestais de origem nativa, inclusive o carvão vegetal nativo.

“É importante ter em mente que a corrupção causa o desmatamento. Os empresários do setor falam que não estão preocupados com a madeira, o que é óbvio porque eles conseguem de graça”, disse. “O que importa mesmo é o DOF para dar continuidade às fraudes”, completou.

Outro ponto destacado por Saraiva durante entrevista ao Portal O Poder diz respeito aos trabalhadores. Conforme o delegado, quem está na linha de frente atua como escravo dos verdadeiros criminosos.

Portanto, de acordo com o delegado, o objetivo no combate ao desmatamento deve ser “quebrar” a organização criminosa na atividade madeireira.

“Costumam falar que à época do descobrimento os indígenas trocavam pau-brasil por qualquer produto. Mas o que acontece hoje é muito pior. O ipê está sendo negociado a preço de compensado, é barato porque é roubado”, enfatizou o delegado.

Mais prejudicados

Além dos trabalhadores que são tratados como escravos, há outros prejudicados com a alta nos índices de desmatamento. Os indígenas são os que mais perdem.

“Os povos indígenas e tradicionais são muito prejudicados com o desmatamento, seguidos por quem mora próximo a essas áreas. No entanto, o país inteiro fica no prejuízo porque acaba perdendo patrimônio público”, destacou Saraiva.

No Brasil, o desmatamento acontece em terras da União, sendo Mato Grosso e Pará os Estados que mais desmatam. Para o delegado, não há política que beneficie o meio ambiente no governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

“O Ibama é o órgão mais importante no combate ao desmatamento, mas foi desmontado pelo governo federal, o que prejudica bastante as ações ambientais. O que temos hoje de recursos para acabar com o desmatamento é suficiente. É preciso muito pouco. Os satélites mostram onde tudo está acontecendo. Não precisamos de muito. Mas falta vontade por parte das autoridades”, salientou. “É uma questão de estratégia e de uso inteligente do efetivo. O governo tem que designar equipes e fazer auditorias”, completou.

 

Alyne Araújo, para O Poder

Foto: Reprodução

 

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