A fala da desembargadora Eva do Amaral Coelho, do Tribunal de Justiça do Pará, ao comparar o trabalho dos magistrados a um “regime de escravidão em razão da redução dos chamados penduricalhos, revela um contraste profundo e desconectado com a realidade econômica da maior parte da população brasileira.
Segundo pesquisa do Serasa, o custo médio de vida mensal no Brasil gira em torno de R$ 3.520, considerando despesas básicas como moradia, alimentação, transporte e contas recorrentes. Ainda assim, mais de um terço dos trabalhadores brasileiros recebe até um salário mínimo, atualmente em R$ 1.621, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Na prática, isso significa que milhões de brasileiros sobrevivem com menos da metade do necessário para cobrir o custo médio de vida, equilibrando despesas e priorizando o essencial.
Em março, a desembargadora recebeu remuneração bruta de R$ 117,9 mil. Já no dia 9 de abril, afirmou que, com o corte de benefícios determinado pelo Supremo Tribunal Federal, magistrados enfrentariam dificuldades financeiras e poderiam, em breve, estar “trabalhando em regime de escravidão”.
Ocorre que, mesmo com as limitações impostas, um magistrado em início de carreira pode receber até R$ 62,5 mil, valor que pode chegar a R$ 78,5 mil no topo da carreira, cifras que permanecem muito distantes da realidade da maioria dos trabalhadores brasileiros.
Enquanto isso, milhões de pessoas enfrentam jornadas de até oito horas diárias ou mais, muitas vezes em condições adversas, sem estrutura adequada, sem assessores e sem os privilégios de um gabinete climatizado. Ainda assim, são esses trabalhadores que sustentam, com seus impostos, a própria máquina pública.
Diante desse cenário, a comparação com “regime de escravidão” não apenas soa desproporcional, mas esvazia o peso histórico e social de um termo que remete a uma das maiores violações de direitos humanos da história.
A pergunta que permanece não é apenas retórica, mas necessária: quem, de fato, vive sob condições de exploração no Brasil de hoje?
Da Redação
Foto: Ilustração/O Poder


